João de Souza era um patrimônio imaterial de Ubatuba. Daqueles contadores de causo que não narram — arquitetam. Bastava ele ocupar um banco para que a tarde ganhasse enredo, vírgulas e timing de comediante. E entre tantas que guardei, há uma que merece moldura e silêncio respeitoso antes da gargalhada.
Corriam os anos 80 quando Ubatuba resolveu ensaiar sua versão de Veneza, só que sem gôndola e com muito mais drama. Choveu com uma obstinação bíblica. Os rios perderam a compostura, as ruas pediram exoneração do mapa, e o critério para sair de casa passou a ser um só: saber nadar ou ter o telefone do amigo da canoa. A cidade ficou de molho por dias, num banho de imersão involuntário.
Naquele cenário aquático residia no Itaguá o seu Sebastião Rita — pai do João, pescador e caiçara com diploma vitalício. Aos fundos da casa, perfilados contra a parede como sentinelas aposentadas, descansavam garrafões vazios de vinho e pinga. Daqueles de vidro grosso, patrimônio familiar, capazes de sobreviver a naufrágios e heranças.
Quando o sol, enfim, recuperou o expediente e a água pediu demissão, seu Sebastião foi vistoriar os estragos. E a enchente, como se quisesse se redimir, havia lhe deixado uma indenização.
Ele ergueu o primeiro garrafão. Lá dentro, confortavelmente instalado, um bagre. Não um bagre qualquer, desses que se pedem desculpas ao servir. Era um senhor bagre, com mais de um quilo e postura de quem pagava aluguel. Ergueu o segundo. Outro bagre, igualmente respeitável. No terceiro, no quarto, no quinto... A coleção de garrafões havia virado um condomínio de luxo para peixes desalojados, todos vivos, todos com cara de quem havia encontrado o melhor Airbnb da catástrofe.
Conta-se que seu Sebastião, diante daquela piscicultura espontânea, coçou a cabeça com a calma de quem está fazendo cálculo de cardápio. E decretou, com a precisão de um contador:
— Desse jeito, o jantar está garantido pelo trimestre.
Nascia ali a lenda dos “Bagres dos Garrafões do Itaguá”. E até hoje, quando São Pedro resolve exagerar na torneira em Ubatuba, há sempre um caiçara mais precavido que posiciona estrategicamente uns garrafões no quintal. A maré, afinal, tem seus caprichos. E vai que ela decide entregar o jantar já embalado, né?
Esta, meus amigos, era João de Souza: servia histórias com riso calibrado e tempero caiçara. Das boas. Daquelas que a gente guarda na memória com um brinde silencioso.
Arrelá!
FONTE : GUINHO CAIÇARA SANTOS
via facebook

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