Avaria no Sesmarias


 Avaria no Sesmarias

Tem história que a gente não escolhe esquecer. Ela fica morando na gente, feito casa de caiçara na beira da mata.
Meu pai, Antônio Miguel , contava dos caiçaras matutos. Meu primo João Barreto, entre uma Ubatubana e outra no boteco, também contava. Eu era menino, uns quinze anos, escutando tudo de canto de olho.
O destino tem dessas: hoje moro no Sesmarias. E toda vez que passo pela Escola João Alexandre, o passado me cutuca. Conheci o homem que deu nome à escola. Ele me chamava de Barretinho. “Conheci seu pai, o Barretão. A gente fazia uma avaria nessa mata”, dizia, com aquele bordãozinho de madeira na mão.
“Avaria” era o código dele. Quando seu João Alexandre anunciava “hoje vou fazer uma avaria”, já se sabia: ia entrar no mato, resolver o que tivesse que resolver. E me ensinava: “Barretinho, quando jogo meu bordão de madeira no chão, a cobra fuma”. Demorei pra entender. O bordão dele, quando batia na terra, virava cobra e saía se arrastando mundo afora.
Os filhos dele eram capítulo à parte. O Vardo aparecia com a orelha estufada: “Papai, a aranha já me pegou”. Seu João vinha com a garrafada, despejava um gole na mão e socava na orelha do menino. Remédio de mato, sem choro.
Já o Tieca era mais ousado. Vendo a cobra-bordão no chão, gritava: “Papai, me dá essa cobra pra eu colocar na pinga pra nós beber?”. Seu João nem pestanejava: “Você tá louco, meu menino? Essa cobra é meu bordão!”. Bastava isso pra Tieca e Vardo dispararem morro abaixo: “Deixa quieto!”.
Conheci essa gente toda antes de chamar Sesmarias de casa. Por isso, quando precisei escolher um canto pra viver, não tive dúvida. Já era íntimo da mata, da avaria, do bordão que vira cobra. Já era íntimo do seu João Alexandre.
Tem lugar que a gente não escolhe. É o lugar que escolhe a gente, de volta.
História contada por :


TEXTO DE GUINHO CAIÇARA SANTOS
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