 Raquel Salgado
Duas mortes inexplicadas, ainda em processo de apuração, ocorridas há cerca de 15 dias na Santa Casa de Ubatuba, entre outros casos graves, está mobilizando a comunidade que exige providências. A situação já motivou algumas ações por parte da Prefeitura Municipal, que ontem transferiu a administração do hospital para a Cruz Vermelha Internacional. “O povo está ficando com medo de ir ao hospital. Precisamos saber o que está acontecendo. O que está errado? Faltam recursos? É descaso dos médicos? Descaso da direção do hospital? Temos que apurar. Não podemos ficar quietos”, desabafa Rogério Frediani, vereador do PSDB cumprindo seu terceiro mandato, ex-vice prefeito e empresário local. “Um destes casos eu acompanhei de perto pois conheço a família. Era um rapaz de 24 anos, morador da Maranduba, que entrou andando na Unidade Mista de Atendimento do bairro num domingo, às 12h. Foi transferido e às 21h estava morto. Sei que a Secretaria de Saúde está investigando para tomar as providências necessárias, porque tem que apurar tudo. A comunidade está muito traumatizada e daqui a pouco até turista vai ter medo de vir para cá”, afirma Frediani. Segundo ele, os problemas vêm se acumulando e a Câmara já tinha aprovado a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), a seu pedido, em julho passado. Membro da Comissão de Saúde da Câmara, Frediani conta que a justiça acabou suspendendo a CPI, alegando falta de publicidade e agora a Câmara está apelando ao Tribunal de Justiça. “Percebo que não existe um vínculo dos médicos que trabalham aqui com a comunidade, com a população. E a gente percebe que existe uma briga interna grande entre eles. No caso do professor de História, o paciente agonizou quatro dias. Imagine que não tinham um especialista e não permitiram que a família trouxesse o neurologista de fora. Não deixaram o médico entrar no hospital. Precisava da autorização da direção. Como é possível isto?”, indaga o vereador. Ele conta que na última sessão (terça), a Câmara votou uma alteração no orçamento municipal aprovado em dezembro, remanejando cerca de R$ 500 mil para melhorias no hospital. “Nós queremos ajudar, mas tem que identificar o problema primeiro”, diz Frediani, posicionando-se contrário à terceirização dos serviços de saúde e educação. “São setores que precisam ser humanizados. Não pode terceirizar. Uma empresa quer o quê? Quer lucro, quer mais dinheiro!”, afirma.
Ato Público
O movimento “Ubatuba em Rede”, que reúne inúmeras entidades e associações locais que atuam em diferentes setores, está mobilizando a comunidade para um Ato Público na Praça Nóbrega (calçadão central), na próxima segunda-feira, a partir das 10h. O objetivo é coletar assinaturas num documento que será encaminhado ao prefeito Eduardo César; ao Secretário de Saúde, Clingel Frota; à direção da Santa Casa; e ao Ministério Público; solicitando providências. Às 15h está marcada uma caminhada até à Prefeitura e depois até a Santa Casa. “Queremos providências. Queremos a humanização do atendimento e uma saúde de qualidade aqui. No mínimo na triagem dos pacientes. Não é possível que alguém que chega numa emergência, tenha que ficar numa fila por ordem de chegada, sem preferência às urgências, aos idosos e crianças, sem ninguém para orientar, para dar uma informação”, afirma a pedagoga Sonia Bonfim, diretora executiva da Fundação Alavanca, ONG que trabalha com educação sexual e prevenção às drogas, trabalho dirigido aos adolescentes e que usa o Hip Hop como linguagem. “Os médicos se fecham num grupinho. Não deixaram a família trazer um especialista, um neurologista que o hospital não tinha, no caso do Professor Maurício, que tinha 46 anos e deixou um filho de cinco. Ele morreu dias depois de um aneurisma cerebral e estava sendo tratado de virose! No caso do moço da Maranduba, os médicos fizeram gozações com ele. Não dá para agüentar isto no século XXI. É muito desrespeito. Eles não te olham na cara, não colocam a mão em você durante a consulta”, desabafa Sônia. Segundo ela, a data de 8 de março, Dia Internacional das Mulheres, foi escolhida em homenagem à mãe do professor, Zelma Therezinha Landi, 74 anos. “Ela escreveu aos jornais e teve a coragem de denunciar o que aconteceu. Temos notícia de vários outros casos, mas as pessoas não denunciam. Há poucos dias um empresário local, com um corte na cabeça, esperou 28 horas por uma vaga na UTI e acabou transferido para São Paulo de helicóptero. Hoje me ligou outro rapaz, Valdnei, está lá com o filho prematuro e não sabe o que fazer. E este é o único hospital da cidade!”, afirma ela.
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