Naquele tempo em que o mundo parecia caber inteiro entre o mar e a mata, a pequena praia do Ubatumirim guardava histórias simples, mas profundas como o próprio oceano. Era por volta dos anos de 1950, e entre as poucas casas espalhadas pela areia vivia uma menina de olhos curiosos e passos ainda aprendendo o caminho das palavras.
A escola não era um prédio, nem tinha sino ou corredores. Era uma casa de gente simples , dessas de porta sempre aberta, onde o saber entrava junto com a brisa do mar. Ali, sentada em bancos rústicos, ela começou a desenhar as primeiras letras, guiada pela mão paciente de uma professora que não ensinava só o alfabeto — ensinava o mundo.
A professora tinha um jeito doce, um olhar que acolhia, e uma voz que fazia cada criança acreditar que aprender era uma espécie de encanto. Para aquela menina, ela era mais do que mestra — era quase parte da família, alguém que o coração escolhe sem pedir licença.
Depois das aulas da manhã, o ritual se repetia como as ondas: voltar para casa, almoçar o que o dia oferecia, e então seguir sozinha até o rio Ubatumirim. O rio cortava a praia como um segredo antigo, vindo lá das bandas do Estaleiro, e ela já conhecia bem o ponto de travessia. Com cuidado e coragem, atravessava suas águas para visitar a professora — às vezes sem motivo, só pela vontade de estar perto.
Mas houve um dia diferente.
O sol ainda alto no céu, o silêncio quebrado apenas pelo canto distante das aves, quando um som estranho surgiu — um ronco metálico, desconhecido, que fez o coração da menina bater mais forte. Ela parou, olhou para cima, e viu riscando o azul um pequeno avião amarelo, algo que seus olhos jamais tinham presenciado.
A aeronave passou baixa sobre a praia, cortando o vento e o tempo, e foi pousar ali perto, próximo à escola. A menina, tomada por um misto de curiosidade e pressentimento, observou de longe, sem entender o que aquilo significava.
Foi então que viu.
Sua professora — a mesma que lhe ensinava as letras, que sorria com ternura — surgiu com uma sacola nas mãos. Caminhou com passos firmes, mas silenciosos, como quem já havia decidido partir. Sem olhar para trás, subiu no avião.
O motor voltou a rugir.
E, em poucos instantes, aquele pássaro amarelo se ergueu novamente no céu, levando com ele uma ausência que nunca mais seria preenchida. Não houve despedida, não houve explicação. Apenas o vazio que ficou no ar… e no coração da menina.
Naquele dia, ela atravessou o rio de volta sem entender completamente o que havia acontecido. Mas algo dentro dela sabia: havia perdido alguém que jamais esqueceria.
Os anos passaram, como passam as marés. A menina cresceu, viveu, construiu sua própria história. Mas aquele instante — o som do avião, o céu cortado de amarelo, e a imagem da professora partindo — ficou guardado em um lugar onde o tempo não alcança.
Hoje Luzia Nunes está com 87 anos , quando a memória se torna abrigo, ela ainda volta àquele dia com uma mistura de carinho e saudade. Porque há despedidas que não precisam de palavras para durar uma vida inteira.
TEXTO DE GUINHO CAIÇARA
via facebook
Imagem : IA

Comentários