Enseada da Santa Rita
À beira do mar que reza em conchas e espumas, nasceu uma história que o tempo não apaga, apenas doura. É a história da devoção caiçara a Santa Rita de Cássia, flor de paciência e milagre, guardiã de promessas sussurradas entre o vento e o sal.
Dizem os antigos que a primeira capelinha erguida em sua honra ficava numa praia que hoje leva seu nome. Pequena, simples como coração de pescador, ela era ponto de encontro entre o céu e a areia. Um padre de passos mansos e fé teimosa percorria as casas, pedindo esmolas para comprar um sino que chamasse o povo para a oração. As moedas, porém, eram poucas, e o sino parecia sempre distante como o horizonte.
Sempre que passava pela praia, ele se sentava numa pedra da costeira do canto esquerdo, contemplava a criação de Deus e ali contava, uma a uma, as moedas arrecadadas. Era seu altar ao ar livre. Até que, num desses dias de silêncio e brisa, reclinou-se sobre a pedra e partiu serenamente, como quem adormece no colo do Criador.
Quando o encontraram, havia apenas seus pertences devocionais. Nenhuma moeda. Contam, num sussurro que atravessa gerações, que a rocha teria absorvido o pouco que ele juntara, e que, desde então, quem batia naquela pedra ouvia um som oco, como sino encantado. Por isso, a Praia de Santa Rita também passou a ser chamada de Praia do Sino — memória viva de fé transformada em milagre.
Por muitos anos, curiosos, devotos e pescadores testaram o mistério: um toque leve com outra pedra e lá vinha o som metálico, profundo, quase solene, como badalada submersa. O prodígio chamou tanta atenção que, em certa época, pesquisadores da USP vieram até a costeira para estudar o fenômeno. Retiraram um pequeno fragmento da rocha para análise. Mas os mais velhos juram que, a partir daquele dia, a pedra nunca mais soou como antigamente. Como se o encanto tivesse sido ferido, ou como se o sino invisível tivesse escolhido o silêncio para guardar seu segredo.
O tempo correu como rio manso. A capelinha envelheceu, pediu reparos, e foi deixada para trás em favor de um novo local, mais próximo do coração pulsante da comunidade: o canto esquerdo da praia vizinha da Enseada, onde hoje passa a Rua Maciel, um pouco abaixo do antigo armazém. Ali, a devoção se replantou.
Os caiçaras lembram com saudade das novenas iluminadas por lamparinas, das quermesses perfumadas de bolo de fubá e café passado na hora. Dona Gertudes, moradora da Praia das Toninhas e enfeitadeira da capela, contava com brilho nos olhos que a imagem da padroeira era do tamanho de um dedo mínimo. Tinha coroa, brincos e uma correntinha de ouro. Com os adornos, ficava quase do tamanho de um dedo indicador — pequena no corpo, imensa na graça.
A capela, rústica e muito asseada, recebeu imagens vindas da Capela da Ilha Anchieta após a rebelião. E assim, entre perdas e chegadas, a fé crescia junto com a amizade do povo. Todos se conheciam, todos eram parentes de sangue ou de alma.
Era lindo ver a Folia do Divino chegar com sua bandeira vermelha tremulando como chama sagrada. As Folias de Reis acordavam os moradores com cantorias, violas e rabecas, como se os próprios anjos visitassem as casas de porta em porta.
Com o passar dos anos, outra capela precisou ser construída. Sua pedra fundamental foi lançada em janeiro de 1962, com projeto do renomado arquiteto Oswaldo Bratke. Vieram autoridades, veio a comunidade inteira, veio a bênção do Frei Victorio Valentini e o dobrado festivo da banda municipal. Pertencia à Paróquia Exaltação da Santa Cruz e, mais tarde, passou à Paróquia Nossa Senhora das Dores, do bairro do Itaguá, criada em 2009.
A capela mudou de forma ao longo do tempo: ampliações, reformas, remodelações. Muitas imagens sacras em gesso, de beleza singela, foram retiradas. Mas a alma do lugar permaneceu intacta.
As festas começavam em maio, no dia de Santa Rita, e seguiam com Santo Antônio, São João e São Pedro. Havia festeiros, capitão de mastro, capitão de fogueira. A pracinha enfeitada, as barraquinhas de comes e bebes, os risos soltos no ar. Em outubro, Nossa Senhora Aparecida repetia o mesmo ritual de alegria e devoção.
Era tempo bom. Tempo de fé compartilhada, de mãos calejadas que sabiam rezar e remar, plantar e festejar. Tempo de uma comunidade que respirava tradições e devoções caiçaras.
E até hoje, quando o vento sopra diferente na Praia do Sino, há quem diga que se ouve um toque leve, profundo e doce — como se o sino que nunca foi comprado continuasse chamando o povo para rezar, em nome de Santa Rita de Cássia, a santa das causas impossíveis e das esperanças que nunca morrem.
Por Rogério Estevenel
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