Lendas e contos de Ubatuba - A Cruz de Ferro
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LENDAS E CONTOS DE
UBATUBA
A CRUZ DE FERRO
Reescrita por Paulo Roberto Andrade
Ilustração: Kátia Apresentação
Em 1897. Juca Mineiro morava num
sítio em Cunha, com seu filho Gregório e sua mulher Mariazinha Ela era. muito
bonita e desejada por outros homens. A mineira de Alfenas não dava bola pra ninguém
e Juca a amava muito.
Basílio de Campos, malandro,
desejava a mulher de Juca. Depois de muitas visitas ao sítio enquanto Juca estava
na roça, convenceu Mariazinha a ir embora com ele. Juca procurou a mulher em
toda a região até que um tropeiro lhe disse tê-la visto com Basílio na cidade
de Guaratinguetá. Juca chorou e sofreu bastante. Agora só tinha o filho
Gorinho, que foi criado por Juca sabendo que a mãe havia morrido e pensava que
por isso o pai era triste.
Um dia em Aparecida Juca viu Basílio
e o provocou com um esbarrão. Quis matá-lo com uma faca, mas desistiu, Não
queria que Gorinho carregasse a marca de filho de prostitua e de assassino.
Mudou para Ubatuba, onde comprou um sítio. Um dia foi vender as terras de Cunha.
No litoral, Gorinho nunca saberia da mãe – pensava Juca. Voltando, no alto da
serra, parou e disse ao filho:
- Gorinho, aquele azul lá embaixo é o
Oceano Atlântico. Mar de Ubatuba. Lá é que vamos morar. Peço que você jure
nunca mais vir para os lados da serra.
O menino confuso não entendeu...
- Por que pai?
- Não pergunte nada. Promete?
- Sim pai.
Nesse momento um homem
inesperadamente invadiu o caminho, disparou um tiro de garrucha no peito de
Juca e desapareceu no mato. Agonizando e sabendo que ia morrer, Juca contou
toda a sua história ao filho, que nesse momento tinha 12 anos. O mineiro após
contar tudo, disse as últimas palavras:
- Vingue o seu pai. Deus cuide de
você meu filho. – Disse morrendo.
Gorinho enterrou ali seu pai e
fixou no lugar uma cruz de madeira e jurou trazer ali um dia a prova de sua
vingança.
Onze anos depois em Ubatuba,
Gorinho com 23 anos vê Basílio. Sabendo que Basílio ia subir a serra naquele
dia, partiu antes e o esperou perto da cachoeira grande da serra. Eram cinco
horas da tarde quando Gorinho viu na curva três mulas e atrás, Basílio, distraído
num cavalo baio. Ao passar perto da cachoeira para pegar água, foi surpreendido
por Gorinho:
- Desce do cavalo. Vai morrer agora miserável! – Diz o jovem cheio de ira.
-
Não tenho dinheiro. Pode levar as mulas.
-
Como está minha mãe?
-
Tua mãe? Quem é tua mãe?
-
Aquela que você roubou do meu pai.
-
É você Gorinho? Ela...
Gorinho não o deixou terminar e
varou-lhe o coração com a faca do pai. Basílio morreu fitando Gorinho que com a
faca arrancou tiras da camisa com o sangue ainda escorrendo e foi até a cruz.
Lá chegando, ajoelhou-se diante dela e disse:
-
Pai! Hoje eu lhe vinguei. Aqui está o sangue quente de Basílio.
Colocou os farrapos ensangüentados sobre
a cruz e a beijava quando alguns viajantes vinham em sua direção, maravilhados e
gritando:
- Milagre! Milagre! Milagre!...
A madeira da cruz se transformou em
ferro e brilhava coberta de flores reluzentes e perfumadas que antes eram os
farrapos cheios de sangue que ele colocara ali. Desde esse tempo a cruz de
ferro está na serra que vai para o Vale do Paraíba. Um bando de urubus levou pelo
ar o corpo de Basílio para dentro da mata e lá o devoraram. Até hoje a cruz de
ferro floresce quase o ano inteiro.
Paulo Roberto Andrade é professor e membro da Academia Ubatubense de
letras
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