quinta-feira, 25 de novembro de 2010

GRANDES UBATUBENSES......MARIA BALLIO, A MULHER QUE VIROU LENDA EM UBATUBA

Maria Ballio
Maria das Dores Ballio  Fava  - A mulher que virou Lenda ( 1914-1985)


Na região norte de Ubatuba, na praia da Justa (ao lado da Praia do Ubatumirim) a menina Maria das Dores Balio Fava “estreava” para o mundo. Filha de Antonio Silva Balio e Estefania Balio, ela nasceu no dia nove de junho de 1914 e seu destino, ou melhor, o do município, teria boas surpresas. 


Cedo perdeu a mãe, ficando aos cuidados de um tio. Seu pai mudou-se para a cidade e aos 10 anos ela é matriculada no grupo escolar Dr. Esteves (única escola da época). Foi lá que ela completou o quarto ano de grupo, como chamavam naquela época. Já com o diploma na mão, lecionava para 1ª e 2ª séries, só que um outro professor é quem assinava o ponto, já que não tinha idade para receber o salário. 

Com toda a família, seu pai mudou em 1930, para a Maranduba. Moça bonita e “prendada” como era, enamorou-se e casou com Hilário do Prado em 1936, desta união, nasceram o Sebastião, a Cida, o Zezinho, a Ceci, o Toninho, o João, a Dita e a Terezinha. Carinhosamente chamada por Mariazinha ela, em 1937, costurou e confeccionou inúmeras roupas de cama para o Hotel Idalina Graça, que ficava ali na Praça Exaltação à Santa Cruz e que recebeu quase todas as autoridades na comemoração do III Centenário de Ubatuba.

Em lembranças de suas falas, ela recordava-se dos detalhes daquele acontecimento. Após as comemorações, seu marido recebeu a nomeação de vigilante da Ilha Anchieta, onde morou com ele e tiveram sua segunda filha. Depois foi carcereiro. 

Passado esta experiência, mudou- se para o Sertão da Quina e seu esposo veio trabalhar com seu pai, João do Prado, no engenho de pinga (onde hoje é o posto de saúde Izabel Félix dos Santos). Neste período seu esposo faleceu. Com a situação difícil, não viu alternativa senão vender o engenho. 

Seu pai, vendo a luta de Maria, convidou-a para morar na cidade, mas ela não aceitou, pois tinha muitos filhos e na região poderia criá-los da forma que Deus permitia. Lavando roupas, fazendo doces e costurando ela ia sustentando os filhos à beira da praia, onde construiu uma casa (ao lado do Cruzeiro). 

Na década de 50, com o inicio da construção da rodovia, aumentou o serviço de lavar roupas, já que o numero de trabalhadores havia aumentado. O telegrafo que tinha só duas linhas, uma na Praia da Justa e outra na Maranduba, era o único meio de comunicação de Paraty a Santos. 

Maria Balio casou-se novamente, desta vez com Mario Fava e tiveram as filhas Julia e Otilia. Ela sempre foi o elo entre as necessidades dos moradores e os que tinham por obrigação atendê-los. Com a ajuda do poder público ou não, ela era quem resolvia as coisas. Era adepta dos mutirões, fortalecendo a estrutura local e a manutenção dos vínculos fraternais entre as pessoas. Muitos se recordam do mutirão para a reconstrução da igreja que havia sido derrubada por um comerciante. 

Seu envolvimento fez com que conhecesse muitas pessoas e foi numa destas andanças a colaboração de algum morador que conheceu. Virgínia Lefreve, que sabendo de suas habilidades convidou-a para lecionar na Caçandoca como professora leiga, era 1956. Ela participou do Programa de Educação Pró e Saúde de Virginia, que levava material às escolas como leite, material escolar e remédios. Era da época do leite em pedra, que tinha de bater, esquentar água e só depois servir às crianças. 

Aos amigos e parentes, ela dizia que no primeiro dia de aula chegou atrasada, pois o cavalo que a levava havia caído com ela de uma “pinguela”. De qualquer forma, chegou à sala de aula molhada e a pé. “Todos acham que é mentira minha principalmente por conta da data”, recordava. Os meios de transporte de Maria Balio foram: sandálias, canoa, cavalo e a bicicleta. 

O ponto de encontro da região era sua casa, todas as autoridades vinham a ela, que era um excelente cabo eleitoral. Por conta destas visitas, Maria Balio recebeu do ex-prefeito José Fernandes o convite para ela organizar uma escola no bairro do Sertão da Quina. Na realidade não foi construída, o prédio foi o resultado do aproveitamento de uma antiga casa, que hoje é a escola que leva o nome de sua amiga Tereza dos Santos

Uma vez ela solicitou ao prefeito a troca do telhado da escola, já que estava em péssimas condições, ele (prefeito) dizia que não dava para atender. Inconformada com a decisão, Maria reuniu alguns moradores e pediu que eles tirassem todo o telhado e amontoassem ali próximo para depois levarem as suas casas. Então Maria foi à cidade e lá informou ao prefeito que um vendaval havia destelhado a escola, e que, mais do que depressa teriam de trocar o telhado. O telhado foi tirado, a telha e as madeiras foram amontoadas. Detalhe: só esqueceram de levar do local. O prefeito em visita a escola, olhou aquela situação virou para ela e disse: “Que vento estranho! Ele amontoa as telhas e o madeiramento direitinho!”. A situação foi cômica e Maria contou que ela é quem tinha mandado tirar o telhado. O prefeito depois de rir muito, mandou construir um telhado novo.



O local era cercado de roças e os documentos da época vinham até com o seu nome datilografado: INCRA de fulano de tal, “Aos cuidados de Dona Maria Balio”. Podia ser o lugar mais longe da região, ela fazia questão de entregar. Ela ainda como professora ia à casa dos pais saber o que havia acontecido com o aluno que não compareceu a aula no dia anterior. O rio Maranduba, ou Água Branca vivia inundando a parte baixa do bairro, era comum, na hora de ir embora ela enfrentar enchentes com água pela cintura depois das aulas. 

Maria colaborava nas realizações das grandes festas e procissões dos bairros, ela foi retratada em muitas fotos. Em 1956, ela foi convidada pelo Dr. Alberto Santos para ser vereadora. Naquela época, vereador não recebia salário. Ela enfrentou injustamente um processo de cassação, que não teve êxito. Sua atuação política falava por si e com isto almejava sucesso em suas empreitadas. Suas ações fizeram que fosse eleita por 13 anos consecutivos, nos governos do Dr. Alberto Santos, Wilson Abirached e Ciccilio Matarazzo.

Ela havia ganhado as eleições com uma votação expressiva na época, eleita com mais de 200 votos, isso na primeira disputa, onde se deslocavam para votar de canoa, a pé ou com os poucos cavalos. Pode-se dizer que ela tinha duas grandes paixões em sua vida: os filhos e a vida pública, que é traduzida como ajudar realmente aos outros. Muitos moradores são frutos dos ensinamentos e ações de Maria Balio.
Ela é responsável por construções de escolas no Sertão da Quina, Tabatinga, Lagoinha e da Maranduba. Na Lagoinha travou uma briga com o prefeito, que não queria atendê-la. Insistente que era conseguiu que o prefeito mandasse o material para a construção da escola, que era na realidade um galpão aberto, escola esta que duraram três dias, o vento de “fora” soprou forte demais que entrou no galpão e ao subir arrancou o telhado. Mesmo assim, ela levou os alunos até a Fazenda Bom Descanso para estudarem. A da Maranduba recebeu o nome de Virgínia Lefreve, que através de um deputado estadual conhecido, solicitou que fosse dado o nome de sua grande amiga e pessoa que havia oferecido a ela a oportunidade de ensinar na região.
Ela trabalhou muitos anos na área da saúde, nesta área ela foi considerada a “Mãe da Pobreza”, ela ajudava muita gente, desde roupas até comida. “Quando faltava médico, dependendo da situação ela atendia os pacientes, quando o médico vinha, ela passava o ocorrido ao médico e este lhe dava os parabéns”, diz emocionado Sebastião Jesuíno de Oliveira, 73, que tratava Maria Balio como sua segunda mãe. Na época da catástrofe em Caraguatatuba ela ficou vários dias no bairro do Getuba sem vir para casa, sua missão era vacinar todos que iam e voltavam do trabalho de resgate e apoio as vítimas.
Na saúde ela se aposentou. Sua casa sempre recebeu médicos, políticos, jornalistas e autoridades, foi até sede da casa paroquial. Muitos têm orgulho de tê-la conhecido, imaginem os filhos? No dia 23 de julho de 2003, ela teve uma grata surpresa. A Câmara Municipal de Ubatuba teve a honra de realizar uma Sessão Solene em sua homenagem. Lá compareceu família, amigos, ex- -alunos, autoridades, conhecidos, ex-prefeito, imprensa. Feliz, no microfone ela desabafou: “Eu pensei que ia embora sem ser reconhecida”.
Maria Balio faleceu no dia 13 de abril de 2005, sua partida causou comoção no município. Mais uma enciclopédia de nossa história havia partido, mesmo quem não a conhecia chorou lágrimas sinceras. Mulher guerreira, empreendedora, dotada de uma memória invejável, a frente de seu tempo, lutadora, de visão ampla e que virou referencia em Ubatuba de político, pessoa, mulher, filha, esposa e mãe.

Para o ex-vereador e ex-presidente da Camara de Ubatuba, Eduardo de Souza Neto, ela é considerada a personalidade feminina mais importante do município. Seus esforços, deste os mais simples aos grandiosos lhe deram dignidade e muito respeito. 

Quem a conheceu se sente iluminado, privilegiado. Quem ouviu sua voz, tocou em sua mão, caminhou ao seu lado fala de uma personagem que não faz mais parte de nossa história, mas sim diz, em letras maiúsculas, que MARIA BALIO É A MULHER QUE VIROU LENDA em Ubatuba.


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