segunda-feira, 30 de agosto de 2010

UBATUBA 1998.... O Rio Grande de Ubatuba e seu Problema Escatológico

Eduardo Antonio de Souza Netto
articulista@ubaweb.com

Ele desce a Serra do Mar, margeia a cidade e desemboca na Praia do Cruzeiro, na baía da cidade. É o maior e o mais caudaloso do município. Foi muito piscoso. Robalos, tainhas, paratis eram os mais nobres. Cardumes desses peixes entravam pela boca da barra, vindos do oceano. Alimentaram muitas bocas e era uma beleza espiar os majestosos robalos subirem o rio ou assistir, na superfície, o zás-trás dos paratis e tainhas.





Rio Grande de Ubatuba - Foto: Jaür Carpinetti Filho
Os mais antigos da cidade devem se lembrar do velho Jango Teixeira, arpoando, ao entardecer, os robalões, de cima da extinta ponte de madeira. O Boca-Rica e o Jair Carpinetti eram useiros e vezeiros na pescaria com tarrafas ou com redes de bater poita, de emalhar. Várias gerações se serviram do Rio Grande para a pesca e o lazer.
Percorrendo-o de canoa, podíamos desfrutar de uma densa mata ciliar, de árvores frutíferas e de inúmeros pássaros ribeirinhos. Lembro-me dos pés de ingá debruados das margens, de que ficávamos de pé na canoa para colher as vagens do ingá dependuradas em suas ramagens. Passamos grande parte da infância e da juventude nas águas do Rio Grande. É um rio incorporado à nossa existência, ao que fomos e somos - ubatubanos (apesar do Luiz Roberto teimar que somos ubatubenses. Ubatubano é quem nasceu aqui e/ou vivenciou por certo tempo as tradições, a cultura caiçara. Nossos filhos, por exemplo, já são ubatubenses. A cultura caiçara praticamente não mais existe).



Bem, neste momento em que escrevo estas mal traçadas, o nosso Rio Grande está sendo motivo de uma discussão na cidade, envolvendo autoridades, órgãos públicos e meios de comunicação. É que a SABESP, a empresa de saneamento básico do Estado, que presta serviços no município, em janeiro último, resolveu despejar num "braço morto" do nosso rio, o esgoto domiciliar da rede coletora do centro velho da cidade.
Pela rádio local, o diretor da SABESP, Pedro Tuzino, alega que tomou todos os cuidados técnicos para que não houvesse danos ambientais. Diz que foi obrigado a fazer um extravasor, que o esgoto está saindo peneirado e com cinco ppm de hipoclorito. O diretor da CETESB, a empresa responsável pela fiscalização das questões de saneamento, diz que o engenheiro da SABESP agiu de forma tecnicamente adequada para minimizar o problema. A promotora pública, doutora Elaine, por sua vez, na mesma emissora, defendeu a ação do diretor da SABESP e chegou a dizer que a empresa não estaria poluindo o Rio Grande, que ele já vem sendo poluído pelos esgotos das residências, que são próximas do rio, não servidas pela rede coletora.
Os moradores ribeirinhos, nas proximidades do local do despejo tapam o nariz, por causa do intenso mau cheiro. Denúncia foi formalizada no Ministério Público. Chuvas fortes e contínuas que começaram nesta semana, após o mês de janeiro inteiro e parte de fevereiro de estiagem e calor senegalesco, estão encorpando o Rio Grande. A esta altura, o "braço morto" e cheio de bosta deve ter se misturado ao nosso rio e seguido mar adentro.
Se o Rio Grande vem sendo poluído há algum tempo, como é de conhecimento da promotora, que mal pode haver num extravasamento esporádico do esgoto que a SABESB garante não oferecer nenhum impacto ambiental? Esse tipo de argumento valeria para, por exemplo, no caso das queimadas na floresta amazônica? E o mau cheiro, é ou não é poluição?


Na verdade, estão vendo o problema de forma circunstancial, acidental. Não enxergam o contexto. É essencial para esta cidade, para o seu futuro, o resgate do Rio Grande, pelo menos em parte, do que ele foi e significou no passado. Nenhum projeto urbanístico para esta cidade, que vive do turismo, pode ser pensado sem a presença deste rio.

 Não podemos fazer dele, e dos outros dois que deságuam na baía da cidade, a nossa cloaca. Não é à toa que, em 1847, o artigo 13 das Posturas da Câmara Municipal da Villa de Ubatuba dizia: "Toda a pessoa que lançar no rio d'esta Villa, ou fonte de servidão pública immundices, animaes mortos, ervas venenosas, e tudo quanto possa tornar as aguas insalubres; fizer lavagens, varrellas, amarrar animaes nas margens do rio de fórma que possa enlodar a agua, ou lavar cavallos no lugar da serventia, será multado em 4$000, duplicando-se na reincidência." O artigo 14, por sua vez, prescrevia: "Todo o proprietário, ou inquelino de predios urbanos, que dentro dos limites d'esta Villa fizer canos, e por elles esgotar liquidos insalubres, ou outra qualquer cousa que não seja a agua das chuvas, será multado em 4$000, e no duplo na reincidencia."


Seriam os homens do passado mais sábios do que os de hoje em dia? É Sartre quem diz: "É o futuro que decide se o passado está vivo ou morto" (pag. 613, O Ser e o Nada, Editora Vozes). Enquanto isso, assistimos a essas discussões periféricas, escatológicas, que não vão ao fundo, nos esquecendo de que temos um passado que poderia iluminar e fecundar o presente. Mas, talvez, isso seja ruminação de um caiçara inveterado, de um ubatubano de escroto cheio.Fim do texto.



Ano 1 - Nº 5 - Ubatuba, 15 de Fevereiro de 1998

Um comentário:

mantelli disse...
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