quarta-feira, 23 de abril de 2008

ESPECIAL : CONHEÇA " SEU JORGE, DO EMAUS"...




Salve Jorge

por Julia Duque Estrada



Não é preciso ter dinheiro para se preocupar com o homem e o meio ambiente. Motivado por essa certeza, há 13 anos Jorge da Cruz Oliveira saiu da baiana Ipiaú, onde nasceu, com quase nada no bolso e uma grande missão: erguer uma comunidade autônoma para moradores de favela e sem-teto de Ubatuba, São Paulo. O objetivo era oferecer a eles novas perspectivas de vida através da educação e do trabalho. Hoje, Seu Jorge - que dirige a Comunidade de Serviço Emaús Ubatuba - tem sob sua batuta 22 famílias. São 220 pessoas que produzem o alimento que consomem e vivem da renda do próprio trabalho, preservando o meio ambiente.

Para botar em prática sua missão, Seu Jorge, 49 anos, não precisou fazer milagre. Seguiu à risca um lema muito simples: evitar o desperdício. Nos 33 mil metros quadrados, no bairro de Ipiranguinha, zona rural de Ubatuba, nada é problema: o lixo é separado e vendido; o esgoto é tratado por meio de um sistema alternativo e vira adubo para as plantações; os dejetos dos porcos passam por um biodigestor e se transformam em gás natural. O alimento é cultivado na própria comunidade.

O baiano tem muito orgulho de percorrer a área. Cacau, alface, couve-flor, banana, madioca e arroz são apenas alguns dos ítens que compõem o cardápio da comunidade. "Não dá para acabar com a miséria sem acabar com a fome do homem", costuma dizer ele, afinado com as metas do presidente Luis Inácio Lula da Silva.

Guiado por esta filosofia, Jorge conta que sempre teve a preocupação de cuidar do homem e preservar o meio ambiente. "Quando comecei o trabalho na comunidade, falava-se muito em preservar as matas, mas ninguém parecia se preocupar com o homem pobre. Para cuidar do homem, é preciso ensinar que, em vez de desmatar, devemos plantar, em vez de fazer queimadas, devemos preservar", prega.


Deixar tudo para trás

Graças ao trabalho social que realizava com jovens na Bahia, Jorge foi convidado a colocar em prática o projeto da comunidade, em Ubatuba. Foi descoberto pelo padre João Benevides, de Cachoeira Paulista. "O padre me procurou dizendo que precisava de uma pessoa para criar a comunidade em São Paulo e que essa pessoa só poderia ser eu. Larguei tudo e vim", diz Jorge.
Ele não recebe um tostão pela tarefa. "A idéia é conquistar tudo através do trabalho. Começamos com apenas um caminhão para a locomoção e poucos recursos", diz. Ao chegar na área, Jorge teve a certeza de que teria autonomia para administrar o lugar ao seu modo. Em Ubatuba, o baiano ouviu do padre João: "Lá é o seu Céu, aqui é o seu povo".

A comunidade Emaús Ubatuba é formada por gente de todas as idades, 59 das quais vindas da favela Rio Grande do Sul. Na casa principal, de 14 cômodos, Jorge vive com os seis filhos - em idades que variam dos 20 aos 32 anos -, os respectivos genros e noras, 11 netos e mais 54 crianças encaminhadas pelo Conselho Tutelar do Município. "Elas ficam aqui até encontrar os pais", explica Jorge, que para a construção das casas recebeu suporte inicial da entidade Emaús Internacional, sediada na França.
O Emaús é um movimento de pessoas livres e inconformadas com a miséria, que reúne adeptos em todo o mundo. A primeira comunidade nasceu em 1949, na França, fundada pelo padre Abbe Pierre, que após seu mandato como deputado passou a pedir ajuda financeira nas ruas de Paris para manter uma casa para desabrigados. Para garantir o próprio sustento, os moradores passaram a recuperar e vender móveis, eletrodomésticos, roupas e outros objetos doados pelo povo. Esse método de trabalho é clássico no movimento e praticado por 80% das 300 comunidades no mundo inteiro. No Brasil, existem 12 comunidades.

Balcão de empregos

Em Ubatuba, cada família é responsável por sua própria renda. Através do reparo de computadores doados, por exemplo, eles passaram a oferecer cursos de computação. Em época de festas, Seu Jorge arrecada cerca de R$ 4 mil com a venda de lixo para empresas de reciclagem. "Em três meses, é possível reunir um caminhão com sete toneladas", calcula. De acordo com Jorge, a meta é empregar todos os moradores. "Acabamos virando uma espécie de balcão de empregos. Quando alguém precisa de funcionários, liga pra cá", conta.
Além da recuperação de roupas e objetos usados, eles recebem doações de empresários e de pessoas físicas, e contam com o apoio de órgãos públicos. O supermercado Paulista, por exemplo, todo mês doa 10 cestas básicas. Em recente parceria firmada com a Secretaria Municipal de Educação, todo o material danificado utilizado nas escolas - tais como cadeiras e carteiras - será recuperado pelos moradores da comunidade e vendidos para a prefeitura, pelo valor de R$ 10 cada peça.


Além das 22 famílias, distribuídas por 26 casas, na comunidade moram também 17 ex-mendigos. De acordo com Jorge - que tem o respaldo da Secretaria de Ação Social do município, as portas estão sempre abertas para novos moradores, contanto que existam casas desocupadas. "A comunidade é uma entidade particular sem vínculos políticos. Não damos nada a ninguém, emprestamos".

A meta é ensinar o homem carente a caminhar com as próprias pernas: "Suprimos as necessidades básicas das pessoas. Assinamos um contrato de comodato, renovado a cada ano, e oferecemos uma casa com energia, água e esgoto. O contrato estabelece direitos e deveres, como conservar a casa, preservar o meio ambiente, respeitar o próximo e não consumir bebida alcoólica, que é a maior causa da miséria entre as pessoas. Assim, vamos conquistando confiança e amizade", sintetiza.
Os avanços conquistados são enumerados com gosto por Jorge, que garante: todos têm a sua marca. "Eu adoro ler tudo o que aparece na minha mão. Fiquei sabendo, através de um jornal de Piracicaba, de um projeto alternativo de saneamento. Fui atrás do engenheiro responsável e ele acabou nos ajudando a implantar o sistema na comunidade, nos acompanhando durante três anos", conta.

Desde 1994, não só a comunidade como 150 moradores vizinhos são contemplados com a estação de tratamento de esgotos alternativa. Para depurar a água vinda das fossas das casas, é usado o sistema de aguapé - plantas que se alimentam das bactérias das águas, eliminando assim toda a poluição. "Trouxe essas plantas da Bahia", conta Jorge. Assim, doenças como hepatite, agravadas pela falta de saneamento básico, foram erradicadas da comunidade. Através do sistema de composteira, o aguapé é tratado e vira adubo, usado nas plantações. "Não trabalhamos com agrotóxico nem com adubo químico", diz ele.


Há cinco anos foi instalada uma pocilga, que comporta cerca de 70 porcos. Para não lançar no solo o esgoto produzido, Seu Jorge teve a idéia de utilizar um equipamento chamado biodigestor, sobre o qual tomou conhecimento ao repetir o velho hábito: ler uma revista. "Uma empresa alemã nos doou o equipamento. O que acontece é que acabamos produzindo, a partir do esgoto, o gás natural que abastece a minha casa", comemora.
Da infância sofrida, Seu Jorge extraiu o necessário jogo de cintura para enfrentar as dificuldades impostas pela natureza. Filho de uma família pobre na Bahia, ele foi criado pela mãe até os 2 anos. Dificuldades financeiras o levaram a ser deixado na casa do avô, por quem foi criado até os 7 anos, quando fugiu de casa. "Filho de pobre não tem muita liberdade. Eu tinha que trabalhar e, quando queria brincar, meu avô era durão e me batia", conta.

Jorge morou na rua até os 11 anos. Sua vida começou a mudar quando ele foi adotado por uma família de empresários da região. "O que me tirou da rua foi a dedicação dessa família. Comecei a vender doce para eles e não tive a menor dúvida de que estava no lugar certo", lembra. Aos 17 anos, o baiano já tinha sido gerente de bar, administrador de cinema e de supermercado. Tudo isso tendo estudado apenas um ano na vida. "Encontrei boa vontade na professora, fiz da primeira a quarta série em apenas um ano, mas aprendi a ler sozinho, folheando gibis nas minhas folgas. Queria entender o que os artistas dos filmes estavam falando", diz.
Nesta época, a mãe do baiano morreu, deixando para ele a casa na qual foi morar com a esposa e seus dois irmãos, além da própria irmã, então órfã. Casado com Maria Joana - sua atual companheira -, Jorge passou a voltar a atenção para os moradores de rua e para o meio ambiente. "Nossos irmãos estavam a caminho da rua, mas acabamos morando todos juntos e já começamos a vida de casados em uma família de cinco", conta. "Já nesta época, minha família começou a aumentar e não parou mais. Na comunidade, as pessoas são muito felizes, e não existe nenhuma área desmatada", orgulha-se. "Quem trabalha com o homem pobre, acaba sempre se envolvendo com o meio ambiente", conclui.

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